terça-feira, 30 de agosto de 2011

Silêncio

Dormi engasgada. Acordei com a decisão de sonhar em plena realidade, já que no leito não tinha mais graça. Fui então a um lugar lindo - talvez um dos mais lindos do mundo -, onde a calma e a simplicidade se encontram e se encaixam de forma suprema. Primeiramente, resolvi pegar um caminho diferente daquele de sempre. Entrei numa rua de terra enfeitada com grandes árvores. Era a minha primeira vez naquele corredor. Já ali, senti uma sensação diferente, uma energia boa, uma tranquilidade. Ao chegar ao meu destino e me deparar com toda a sua visão, parei e fiquei a olhar aquela imensidão verde, que se movimentava sem cansar. Sentindo a ventania me descabelar, caminhei um bocado, lado a lado com a imensidão. Fui. Voltei. Quando me cansei, enfim, sentei-me. Senti. Senti. E não aguentei. Chorei. Orei. Falei comigo. Meninos jogavam bola a poucos metros. "Bem dita inocência", pensei. Quando a perdemos parece que tudo vai junto. Parece que a gente sucumbe. Parece que o mundo fica coberto por uma fumaça que deprime. Desliguei-me dos meninos. Fechei os olhos por um longo tempo. Aos poucos, uma paz tão desejada, tão querida, foi me invadindo e as batidas do coração desaceleraram. Tentei ler meu pensamento e vi uma sala branca, vazia, muito diferente daquela de horas antes, cheia de rabiscos, toda confusa, na qual as grandes idéias se embaralhavam com decisões e problemas. Eu realmente precisava deste esvaziamento de memória. Eu precisava desta limpeza. Assim, me esqueci das gentes mal educadas, dos engarrafamentos, dos celulares que são feitos de radinhos de pilha, dos atrasos, dos passados, dos adolescentes irritantemente inteligentes e burros ao mesmo tempo, da discussões gratuitas, da minha atual falta de criatividade, do dinheiro contado, de todas as promessas que não são cumpridas. Do limite ao qual cheguei. Limite.

Quero continuar nesse lugar gostoso, mesmo estando bem longe dele.
Se o telefone tocar, diga que não estou.

terça-feira, 5 de julho de 2011

INFORME AOS AMIGOS

Há três meses não posto uma palavrinha sequer aqui. Volto neste dia para deixar um recado muito do importante a todos aqueles que me querem bem.

Eu não sumi por palhaçada. "Sumi" por estar começando do zero (meeeesmo!) a esta altura da vida. Parece que o foi vivido até então não passou de um ensaio, um rascunho para o virá, uma saída do ponto do "verde" para o do "de vez". Eu nunca saí do lugar e isso me deixa muito decepcionada e triste comigo. Há alguns anos, me parecia que tudo estava indo bem. Eu via as coisas caminhando normalmente para as outras pessoas e achava que estava como elas até chegar a atualidade. Não tenho uma mínima parte do que sempre desejei conquistar, apesar de ter lutado tanto. Nos primeiros meses deste ano, me caíram fichas importantes, coisas bestas que me aconteciam e ingenuamente não percebia. Foi bem ruim enxergar, enfim, a face real de muita gente. É sempre triste saber que foi enganado, que todo o cuidado, carinho e dedicação foram em vão. Perdi possibilidades. Perdi esforço. Perdi dinheiro. Perdi pessoas.

Como já disse, estou a começar do zero. Isso não significa começar "de novo", pois se eu for repetir tudo o que ocorreu chegarei daqui a 25 anos com a mesma sensação de agora e isso não está entre as opções de resposta da questão. Desta vez, os medos que me foram impostos pelo mimo bobo não me assustam mais. Chega de deixar de ir porque é muito difícil. "Difícil" não significa "impossível". Gente, chegou a hora de deixar de passar da hora. Não quero falhar novamente. Quero que vocês compreendam o meu afastamento e a minha irritação. Isso não é com ninguém a não ser com a própria Camila. E só. Também peço para não me julgarem (sim, isso anda acontecendo!). Vocês não fazem ideia da loucura pela qual esta mente passa todos os dias atrás de calma para alcançar as respostas necessárias.

E se eu não responder os recados, mensagens de texto e ligações de imediato é porque estou realmente ocupada. Farei isso quando for possível para mim.

É isso, queridos. Boa noite.

quinta-feira, 17 de março de 2011

De volta aos 17

Em 2003, tentei vestibular pela primeira vez. Não exatamente tentei, pois sabia que não estava preparada o bastante. Preferi estudar para obter boas notas nas disciplinas do colégio e não aturar recuperação no fim do ano. Não fui aprovada.
Fiz planos de entrar em um cursinho no ano seguinte. Teria a chance de me dedicar de verdade aos estudos. Passeia estudar como nunca. Porém, eu acabara de adentrar em um mundo completamente diferente do qual havia vivido até então, mundo este onde não havia mais famílias (a minha e as das minhas amigas) rondando a todo tempo. No meu caso, isso era bem mais grave pelo fato de estudar numa escola em que meu pai trabalhava e, consequentemente, a vigilância sobre minha pessoa era ferrenha. Ao entrar no cursinho, comecei a conhecer lados da vida dos quais eu estava privada pela superproteção. Era gente de todos os tipos, de todos os lugares, que falavam de sexo e fumavam maconha sem hesitação alguma. Tudo novo. Nisso, descobri que me dava bem com estas pessoas e pude confirmar meu caráter super-aceito-todo-mundo-como-todo-mundo-é-mesmo-meus-pais-achando-errado. Provavelmente, era meu lado artista que começava a dar as caras de fato. Com essa turma desprovida de preocupação, passei a andar, descobrir verdades e mentiras, me divertir. Dessa forma, só peguei mesmo nos estudos já em outubro, pertinho do início das provas. A conclusão do ano de 2004 é que me empolguei com o tal “novo mundo exterior” e não passei no vestibular. Mas eu estava decidida a tentar outra vez, como dissera o Raul.
Em 2005, voltei ao cursinho com o objetivo de viver para livros e apostilas. Isso mesmo. Meu plano era SÓ ESTUDAR. E mais nada. Pra dizer que não fiz nada além disso, até junho, viajei no Carnaval, dei algumas saídas e operei a tireóide. Em agosto, a coisa ficou muito séria. Muito mesmo. Fiz um horário de estudos e o segui a risca, além de abolir o soninho da tarde. Minhas noites de fim de semana eram dominadas pelos desenhos do Adult Swim, no Cartoon Network (uma pena ter saído da grade deles!). Os domingos eram sagrados para meu descanso: dormia o dia inteiro. Na segunda, começava tudo outra vez até o sábado. Eu estava confiante. Tinha a certeza de que ia conseguir uma vaga na universidade pública, já que estava me esforçando para isso como nunca havia feito antes para coisa alguma.
O vestibular daquele ano estava sendo o maior desafio da minha vida. Fiz as provas. Os resultados saíram. Eu não passara novamente. Para nada. Ao sair a última lista de aprovados (do curso Cinema da UFF, o qual eu realmente pretendia) sem ter meu nome, me desesperei. Minha mãe chorou junto comigo e meu pai tentou me acalmar. A vida estava acabada pra mim naquele momento. Me senti enganada por mim mesma. Fora tanto esforço e dinheiro jogados no lixo. O que seria do meu futuro sem ter uma pública no currículo? Eu passei a adolescência ouvindo dos professores que quem fazia faculdade particular estava fadado ao fracasso profissional absoluto. Perdi a esperança e me prometi que não mais iria tentar vestibular para instituições do governo. Eu havia me convencido de que certas coisas boas não eram pra mim.
A partir daí (já em 2006), deixei-me ser levada pela correnteza. Tudo que fazia era por fazer. Estava extremamente confusa, sem caminho. Entrei numa faculdade particular para fazer Educação Artística, só para não ficar parada. Foram apenas seis meses, mas bem loucos. A tal instituição estava à beira da falência. Os professores fizeram até greve por causa dos atrasos salariais! Nessa confusão toda, senti que era a hora de seguir um rumo que realmente me agradava, já que o curso em que estava tinha a finalidade de formar educadores e eu não tenho nada a ver com isso. Então, antes que minha faculdade fechasse as portas e eu ficasse a ver navios, prestei vestibular para outra instituição privada. Desta vez, para o curso de Radialismo, ou seja, Rádio e TV, ou seja, Audiovisual, que, teoricamente, estava bem próximo de Cinema.
Foram quatro anos de conhecimentos de teorias, equipamentos, softwares, cultura brasileira, hábitos, modas, pessoas e, acima de tudo, de mim. A artista dita há parágrafos anteriores se assumiu como tal e encontrou quem fosse igualzinho. Todos os medos que me foram postos acabaram caindo por terra por não haver necessidade de existirem. A faculdade fora muito mais que um lugar para se obter uma graduação. Fora um período de crescimento, redescoberta e afirmação de coisas que eu sempre soube a meu respeito, mas não tinha coragem de assumir por medo das más criticas, principalmente de minha família. Parece que aqueles quatro anos foram o resto de adolescência que ainda precisava ser vivida. E acho que consegui viver.
Ao fim, porém, as dúvidas me voltaram a pairar na mente. Me perguntava o que ia fazer depois da formatura. Eu ainda não havia conseguido um estágio na área do audiovisual (apenas fora dela – e detestável!), o que dificultava posteriores empregos. Muitos currículos meus foram parar em milhões de lugares e nenhuma resposta veio no momento que eu queria e precisava. Foi quando fiquei sabendo que a UFF abrira inscrições para mais um concurso. Cheguei a pensar em tentar pela quarta vez, mas, pelo amor, quarta vez! Sofrer de novo era algo que não me agradava. O trauma de 2005 não era intenso como outrora, mas ainda persistia. O medo do fracasso não havia me deixava por completo. Enquanto isso, alguns amigos me davam força para tentar o vestibular novamente, todavia, para um outro curso também da área de comunicação, cuja relação candidato/vaga era infinitamente menor do que em Cinema. Então, parece que a chama se acendeu. Fiz a inscrição. Eu quebrara a minha promessa e estava a caminho de mais um concurso para ingressar numa pública.
Desta vez, não houve desesperos. Eu estava atarefadíssima fazendo meu curta-metragem de TCC, produzindo um outro curta e fazendo vários cursos. Reorganizei meus horários e acabei tendo apenas um mês para estudar para as provas. Dei uma lida nas matérias não específicas e caí dentro de História, a específica com maior conteúdo. No dia da primeira etapa, com questões objetivas, cheguei ao campus e me senti de volta ao passado. Eram muitos guris e gurias de 16, 17, 18 anos apenas e eu ali no meio deles. Apesar dessa sensação, algo estava claramente mudado: eu não era mais aquela menina superprotegida que ia fazer prova de vestibular tremendo, que não sabia se controlar emocionalmente nesse tipo de situação, que não conhecia nada e o pai tinha que levar para não se perder. Foi ótimo sentir isso. Até os outros candidatos me olhavam como se eu fosse diferente, superior. Eu estava verdadeiramente calma e me sentia superior.
No segundo dia, o das específicas e discursivas, por coincidência ou não, sentei-me atrás de um menino cuja camiseta tinha a frase “No problem man”. Parecia que era mesmo para mim, bastando trocar o “man” por “girl”. Ri daquilo e vi que vestibular não é um jogo, mas uma etapa da vida, um ritual de passagem. Ninguém vai morrer se não passar no vestibular e caso isso aconteça, não será o fim, como eu pensei um dia. A gente acaba achando um caminho. Sobre a prova de Língua Portuguesa, tinha um texto bem humorado sobre um vampiro que pedia aos leitores para o seguirem no Twitter. Era engraçado ver as pessoas rindo enquanto faziam as questões. Acho que a maioria dali estava relaxada como eu. Não conseguia vê-los como mortais concorrentes, não mesmo. Eu via ali adolescentes que queriam seguir adiante e viver mais uma etapa da trajetória. Os 17 anos de Camila também estavam aflorados.
Passado o período das avaliações, só restava esperar. Passou Natal e Ano Novo. Saiu o resultado. Para minha surpresa, meu nome não estava na lista. De novo. E olha que o tal curso pretendido da vez estava com uma estatística de cinco pessoas para uma vaga! Apenas cinco! Tem cursos que tem vinte, trinta, quarenta seres brigando por uma colocação. E eu não havia passado para um que tinha apenas cinco! Meu chão desapareceu outra vez. O futuro se mostrou incerto. A tempestade se alojou sobre a cabeça que escreve.
Semanas depois, foi divulgado o resultado da primeira reclassificação. Nada. Mais adiante, saiu a segunda. Nada. A sensação que certas coisas boas não são para mim voltou a me assombrar. Um dia, recebi um e-mail da instituição informando que meu nome estava entre os candidatos que poderiam formalizar interesse em futuras repescagens. Na minha cabeça, para um curso como este ter uma terceira reclassificação era improvável pelo fato de as pessoas não desistirem dele com facilidade. Mesmo assim, como já não tinha mais nada a perder, fui lá deixar minha assinatura, provando que tinha o desejo de participar de futuras chamadas. No comprovante, estava a data em que sairia o resultado da terceira reclassificação. Olhei para aquele papelzinho, sem esperança, e guardei-o na carteira.
No dia 15 de março de 2011, abri meu e-mail, como de costume, e vi uma inesperada mensagem da universidade. A lista da terceira reclassificação havia saído! E antes do dia anunciado! Foi taquicardia na certa. Cliquei no link da tal lista e procurei pelo meu curso. Apenas duas pessoas haviam sido chamadas e o último (o último!) nome era o meu. Seria imaginação? Não. Eu faria parte de mais uma turma do curso de Estudos de Mídia de uma das melhores universidades do país. Estava dentro! Não podia me conter de tamanha alegria, pois não se trata apenas de ter passado em um concurso difícil ou de ter um currículo mais bonito, mas de uma prova de que eu também posso, assim como um monte de gente. Talvez eu não tivesse preparada para encarar a vida estudantil de uma UFF aos 17 anos. Eu não tinha a malícia necessária.
Hoje, olho para esses últimos anos e sinto que o tempo de inocência passou. Demorou, é verdade. Eu sou devagar. Tudo comigo é assim. O que importa é que o amadurecimento me ajudou a conquistar a vaga, que oficialmente já é minha. Parece que é agora que a vida adulta vai começar pra valer. Vejo até novas portas se abrindo.
A esperança se refaz.


Que delícia!

domingo, 23 de janeiro de 2011

A função de cada um

Tem umas criaturas que aparecem de forma inusitada em nosso mundo. Chamo de inusitada quando a gente jamais se imagina trocando alguma palavra com aquela pessoa que estava ali sentada no cantinho e, de repente, é isso que acaba acontecendo (claro que existem outras formas inusitadas, este é só um exemplo). Tais criaturas permanecem em nossa vida por muitos anos ou por apenas uns minutos, mas podem jamais ser esquecidas. Ou porque fizeram o bem ou o mal. É só parar pra perceber.
A questão não é isto, simplesmente. Dependendo de como essas pessoas nos aparecem e se relacionam conosco, elas nos deixam suas marcas, sequelas dessa passagem. Pode ser um ódio mortal ou uma lembrança muito gostosa. O mais importante disso tudo, porém, é o que se extrai dessas sequelas, quer dizer, o que se aprende com elas. A partir daí, vem o princípio de que cada pessoa do planeta tem sua função por aqui. Parecer até piada, mas aquelezinho(a) que te passou a perna um dia, com certeza, não apareceu por aparecer. Aposto que se ele(a) não tivesse te sacaneado, você não teria entendido como muitas coisas ao seu redor funcionam. Esta foi a função dele(a) em relação a você.
Essas pessoas, servem para nos acordar e nos mostrar o que não vemos ou fingimos não ver ou acreditar. Elas são bênçãos em nossas vidas, amando-as ou totalmente o contrário. Exatamente bençãos! De quem nos faz bem, como família e amigos (pra quem realmente os tem), nem precisa dizer. O difícil é ver como os sacanas de todos os tipos também nos fazem bem através do mal. É difícil, mas vale parar pra analisar as situações pelas quais passamos com essas pessoas. É justamente nelas que crescemos mais. Aí é que está o "segredo".
Antes de rogar praga pra algum(a) infeliz, reflita sobre o bem (depois que a cabeça esfriar) que te fez, mesmo detestando-o(a). Somos o que somos também com a ajuda dessas criaturas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Desprendimento

O desprendimento é algo extremamente necessário. Aqui, a palavra é sinônimo de desintoxicação ou purificação. Quando usá-la? No caso em questão, para tirar dos pensamentos uma pessoa que passou pela vida e deixou seu rastro, sua lembrança, maldosamente ou sem querer.
Para certas histórias, falar em "esquecer" é errado. É brando demais para quem percebeu nascer em si uma coisa intensa e bela, porém, também destrutiva. Falar em esquecer soa como voltar a lembrar daqui a pouco, tipo "Droga! Esqueci o guarda-chuva logo hoje que terá temporal!".Não combina com essa coisa ruim que é gostar e não poder ter, sentir um vácuo estranho, sofrer e arrepender-se de ter se metido com tal pessoa, até.
Desprendimento é o melhor termo, sem dúvida. Ele é um processo que pode durar poucas semanas ou muitos anos. Cada caso é um caso e com cada um se aprende o que se deve. Nada é à toa. Dentro de tal processo, essa é a parte positiva: a construção do ser. A parte negativa é a morte do sentimento. Dá pena, de fato, ter de matar uma coisa boa. Parece um desperdício. Dá vontade de guardá-lo. Só que dessa pena surge a esperança enganosa de um futuro promissor, o que, lá no fundo, no olho da razão, todo mundo sabe que não haverá.
É triste, mas os sentimentos destrutivos devem ser encarados com uma doença que leva para o abismo. Eles fazem mal e o que faz mal não pode existir. É de se botar a cabeça no lugar e permitir que esse pensamento a consuma. É dessa forma que a pessoa sobreviverá. E não adianta forçar uma barra e sair por aí se envolvendo com o mundo inteiro quando ainda se tem alguém na mente. Não adianta distrair a verdade. Duas pessoas não podem ocupar o mesmo lugar. É preciso que uma saia para a outra entrar. Naturalmente. Engana-se por completo quem acredita nesse truque, pois em alguma hora tudo virá à tona e a dor, a sensação de falha e de incapacidade serão fatais.
A desintoxicação do outro - a droga - é maravilhosa quando termina. Quem conseguiu isso sabe muito bem. É assim que as atenções voltam a se dirigir a outros olhos tão ou mais interessantes e compatíveis que aqueles antigos e a alegria da vida se mostra, até nas coisinhas mais simples. Tudo se equilibra quando se atinge a purificação plena.
O passado pode ser extremamente difícil de ser dizimado, todavia, tem-se a impressão de que ele nem existiu quando está enterrado. A criatura que ainda não entendeu isso jamais vai parar de sofrer. Jamais.

domingo, 21 de novembro de 2010

A história de Lourdes Christine e 007

Eu simplesmente fui parar ali. Estava sem um pingo de ânimo. Mesmo. O lugar estava vazio, quer dizer, até tinham algumas pessoas lá, mas estas não me despertavam interesse. Pus-me a comer para passar o tempo, então.
Já estava acostumada àquele marasmo, quando uma coisa diferente cortou o salão. Acordei. Acordei e abri bem os olhos para ver melhor o que era. Eu estava há algum tempo sem me impressionar com nada. Aí, quando me achava fracassada e invisível a olhos desejáveis, me aparece aquele ser.
Tinha um jeitão de Sean Connery, como 007, com aquela maneira de olhar, assim, meio de lado, sabe?
Enquanto tomávamos uns fluidos alcoólicos, eu me perdia naquelas retinas curiosas, vorazmente voltadas para mim...

Assim, me contava Lourdes Christine.

Tudo o que Lourdes Christine desejava era apenas ter a oportunidade de se perder nas retinas do tal 007 mais uma vez. Ou melhor, mais um monte de umas vezes.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Consultório

Foi ao tal consultório porque a mãe insistiu muito. Era cedo ainda. Entre trancos e barrancos conseguiu levantar-se da cama tão boa. Às vezes, fazia dela seu refugio. Preferia sonhar com maluquices a ter de encarar verdades. Porém, sabia que não podia mais ficar nisso. As coisas haviam piorado e Raul não tinha como negar. Estava péssimo. Se arrumou com cansaço, xingando Deus e o mundo. Quando pronto, foi correndo em direção ao carro da mãe, que o esperava com paciência. Verônica havia desenvolvido uma paciência toda especial para cuidar do filho. Não agüentava mais vê-lo como estava nos últimos meses. Queria empurrá-lo para o bem.

Raul chegou à sala de espera do consultório. Sentou-se no sofá com almofadas forradas de couro marrom e encostou a cabeça na parede. Viu na sua frente a parede gelo. Com a ajuda das músicas que ouvia sem muita vontade, apenas para passar o tempo, dentro dela pôs-se a sumir da realidade. Verônica, muito atenta ao chamado do doutor, monologava com o filho. O rapaz estava visivelmente distante. Raul sabia de tudo. Conhecia todos os porquês. Seu estado não passava do estouro da bola de neve que seus problemas, dificuldades e mágoas haviam se transformado. Ele suportou com coragem durante tempos. No momento inevitável, a tal bola estourou e ele se viu sentado naquele sofá de couro.

Durante a viagem pela parede gelo, passou principalmente por Ana, que o trocou por um mané, como ele denominava o rival. Ao mesmo tempo em que sabia que não podia prender ou mandar nos sentimentos de ninguém, sentia ainda uma mágoa, apesar de não saber se os dois continuavam juntos àquela altura. O estranho para Raul é que não sentia isto pela Ana, mas pelo cara. Além disso, seus pensamentos foram até algumas outras tentativas frustradas de conquista, chegando até à recente Thais, que havia gostado muito dele e, devido ao seu estado louco, de não conseguir entender nem mesmo a si, não pôde ter sua paixão devolvida. Era triste. A menina era uma graça e ele um perdido. Mas sabia que não correspondê-la não era porque ele não queria isto. Queria querer. Tentou querer. Não deu. Acontecia com Thais o que acontecia com ele em relação à Ana.

Seu nome foi pronunciado depois de muitos minutos. Verônica o cutucou. Ele, que não estava ouvindo nada do mundo, tomou um susto e levantou-se com pressa. Entrando na sala do médico, sentou-se ao lado da mãe, falante desde o primeiro segundo naquele ambiente. Verônica contou ao doutor a situação de Raul, que ouvia tudo calado e meio distante. Dissera que o garoto andava muitíssimo triste, sem energia. As causas eram os numerosos insucessos na vida profissional e, principalmente, na pessoal. Em pensamento, xingou Ana em surround. Odiava a garota que matou o brilho dos olhos de seu filho. Ouvindo tudo aquilo dito por uma mãe nervosa, o médico não teve dúvidas e deu na cara a notícia já esperada por Raul. Sua alma, sua mente e seu corpo estavam doentes. O rapaz não se sentiu muito mal, ao contrário de Verônica, cujas lágrimas tentou controlar, sem sucesso.

Saíram do consultório e foram direto à farmácia mais próxima comprar os remédios prescritos. A mãe foi de lá até em casa falando em tom de pedido para o filho não desistir do tratamento. Seguí-lo seria a cura não somente dele, mas também de toda a família, já que nessa todo mundo acabou sendo afetado. O almoço foi anunciado. Raul esperou a turma acabar. Não estava a fim de contatos diretos naquele momento. Precisava muito ficar só. Saiu do quarto, enfim, e sentou-se na mesa. À direita, estava o copo de um líquido qualquer, ao centro, o prato de uma comida qualquer, e à esquerda o comprimido. Raul o pegou e pôs na palma da mão. Ficou por alguns segundos a observá-lo. Ali poderia estar sua cura. Como nada mais importava, resolveu botar fé no que dissera Verônica. Engoliu.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Com

Com profissão congênita.
Com grana em dia.
Com morada dos sonhos.
Com cachorro recebendo.
Com banho gelado.
Com Internet rápida.
Com amigos batendo à porta.
Com música pra dançar.
Com comida boa.
Com soluços de alegria.
Com horários sincronizados.
Com transporte barato.
Com roupa nova.
Com surpresa correspondida.
Com cama quentinha.
Com saúde de espírito.
Com tempo ocioso.
Com inspiração.
Com certeza.
Com solução.
Com café e chocolate.


Com. Porque o Sem é muito chato.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ao meu amante

Foi numa fase de crítico desespero que te conheci.
O engraçado é que foi através da minha mãe.
É mole?
A princípio, não fui muito com a idéia de ter você em minha vida.
Mas minha carência era tamanha.
Não podia te negar, do jeito que estava.
"Ah, por que não?", disse a mim mesma.
Te coloquei no meu cotidiano e apontei pra fé.
Ia te ver todos os dias.
Nossa!
Você era tão chato no início que me dava sono.
Não fazíamos nada de divertido.
Não era a toa que eu lia um monte de livros quando a gente estava junto.
O pior é que você não reclamava do meu descaso.
A única coisa que você sabia era socializar falando putaria o tempo todo.
Rindo e zoando de tudo e todos que nem um garoto de quinze anos.
Aquilo foi me irritando.
Teve uma hora em que a graça das suas gracinhas acabou, mas você continuou com elas.
Ridiculamente!
Pra chamar minha atenção.
Muito, muito ridículo!
A única coisa boa que você me fez foi me ajudar numa época triste.
Você não me deixou cair.
Me distraiu pra eu não ficar pensando no pior.
Me deu esperanças de um futuro mais calmo.
E só.
Ah, claro, você também passou a me dar uma grana.
Só pra ver se eu ficava um pouco feliz.
Não sou de aceitar esse tipo de coisa, assim, desse jeito.
Hoje vejo como você foi é esperto.
Conhece muito bem o poder do dinheiro.
Soube usá-lo para me prender.
Filho da puta!
Você sabia que eu não iria embora por causa da mesada.
Você sabia que eu precisava disto e se aproveitou.
Continuei a ir ao seu encontro todos os dias.
Com o tempo, você passou a não mais me deixar parada.
Me iludia com as notícias dos jornais.
E também com as palavras, com os textos, com a internet.
Tão bobinha eu!
Achava que as coisas entre nós estavam mesmo começando a melhorar.
Comecei até a aceitar tuas pseudo-poesias e texos de exaltação.
Coisas ridículas que você me escreveu!
O que não faz uma coisa (sim, porque é isso que você é!) pra ter uma mulher?
Aí, depois, passou dos limites.
Começou a me encher a porra do saco no fim de semana também.
Queria me ver de biquini na hora em que bem entendesse!
Tava pensando o quê?
Que eu era uma puta como as tantas outras, óbvio!
Daquelas que fazem tudo o que lhe mandam e ficam quietas, né?
Foi só a gente começar a se entender.
Foi só eu começar a ser legal contigo.
Bastou eu me mostrar pra você pra deixar de me levar a sério.
Eu tenho nojo de você, sabia?
Eu tenho nojo da tua pele, dos teus beijos.
Eu sinto nojo da tua cara quando te vejo!
Coisa horrível!
Você me trouxe um asco que nunca senti.
Fez nossa relação se lançar à beira de um abismo.
Disso em diante, caí na real sobre a palhaçada que é você.
Te mostrei o meu lado feroz e você resolveu se vingar.
Sabe aquelas notícias de jornal que me mostrava com paciência?
Então, passou a jogá-las em cima da mesa, com destrato.
Você passou a me destratar de um jeito tão estúpido!
Parou até de me dar aquele dinheiro que fazia tanta questão!
E eu ainda tenho de ficar vendo você rir do que não tem a menor graça.
Tenho de ficar ouvindo aquelas suas risadas forçadas que parecem até de pomba gira!
Ai!!!
Suas grosserias estão acabando comigo, seu verme!
Seu merda!
Seu inútil!
Pensa que pode ficar aí a vida inteira escondendo os seu lado ruim dos outros?
Não, seu merda, você não pode!
Todos já estão sabendo da sua incapacidade.
Eu tenho vergonha de dizer para as pessoas que estou com você.
Tenho medo da reação delas.
Elas odeiam você, com toda razão.
Eu odeio você.
E repito com exclamações.
Eu odeio você!
Eu odeio você!
Eu odeio você!
Porra!!!
Você me atrasou tanto!
Devia se envergonhar em destruir a vida dos outros!
E sabe porque estou escrevendo assim?
Uma frase em baixo da outra?
Essa coisa retardada, que não é prosa nem poesia?
Pra ver se você compreende!
Porque você é burro!
Não sabe ler nem escrever e quando escreve faz estrago!
Come letras e erra nas concordâncias mais banais!
Terrível isso!
É muita ignorância pra mim.
Sou muito pra você.
Demais da conta!
Te traio em pensamento todos os dias.
Você não faz idéia do que me passa na mente.
Nem fazia idéia disso, né, babaca?
Mas logo te deixarei sem remorso algum.
Em breve, muito em breve.
Mais breve do que imagina.
E dessa vez é sério!
Com outro ou sem.
Te deixarei sem olhar pra trás.
Não sentirei saudades, eu sei.
Nunca mais passarei na porta do seu prédio.
Nunca mais passarei pela sua rua.
Nunca mais!
E que se dane o seu ralo dinheiro!
Hoje sei que só serei feliz agindo assim.
Radical e definitivamente.
Minha vida é preciosa demais pra ser destruída por uma catástrofe como você!

sábado, 31 de julho de 2010

Da morte, a passagem

Eu morri dia desses. Cheguei ao limite da beirada. Resisti muito à queda, mas teve uma hora em que não pude mais negá-la. Era preciso. Joguei-me, então.

Eu ainda não entrei no céu, como todo mundo espera entrar depois que morre. Ainda me encontro na transição entre ele e a terra, ou seja, na passagem. Acredito que seja um momento de descanso, de preparo para, talvez, uma nova etapa, seja esta a ida definitiva para o céu ou a segunda chance, a ressurreição. Não posso dizer que é natural, pois não. É, sim, bem estranho saber que está na passagem, já que isso nunca me aconteceu. O que me acontecia era o fato de eu já pressentir a vinda da minha morte de todo mais cedo ou mais tarde. Digo "de todo" porque adoeci um trilhão de vezes, resisti, me curei, adoeci novamente, mas, olhando de hoje, eu ainda não havia morrido como agora.

Acho que é sempre é muito difícil morrer, mas depois que isso acontece, é possível ver que é bom em alguns aspectos. Estou aproveitando essa minha fase de transição para me recuperar da vida na terra. Andei tendo muitos desgostos, sentindo muito ódio e revolta. Meus últimos anos não foram o que eu esperava. O meu falecimento está sendo produtivo neste sentido de me purificar de alguma forma, de esquecer o que passou, de me regenerar. Hoje vejo que de nada adiantou tudo isso. Pra quê se desgastar tanto? No fim das contas, foi tudo bobagem!

Estou aproveitando este período para ficar mais com minha família e meus amigos, aprender coisas novas, me dedicar a projetos que eram sonhos antigos, ler, estudar. Tenho estado "off" da sociedade. Não tenho saído pra qualquer lugar. Às vezes, tenho vontade de sair, mas ao mesmo tempo tenho preguiça. Penso na distância e no tempo que vou gastar para chegar e desanimo. Não estou mais para diversão a qualquer custo como quando era viva, que ia para a rua mesmo de baixo de chuva. A morte me fez pensar mais para não perder viagens, como eu andava perdendo.

Em vida, eu era uma pessoa muito apressada. A pressa que me movia acabou se virando contra mim e me matou aos poucos. Corri tanto para conquistar objetivos, me martirizei demasiadamente por não tê-los alcançado... Mas não adianta! Quando as forças maiores do universo não querem que a vida seja do nosso jeito, planejada e replanejada, ela não será! É dolorido dizer, mas lutar às vezes não vale a pena. Estou cá na transição aprendendo que a solução é justamente se conformar com o que se tem. É foda quando só se ganha o que ruim, o que não se consegue tirar pelo menos um mísero aprendizado desse ruim. Passei a vida brigando com o mundo. Passei a vida correndo atrás do que não foi feito para mim e correndo do que talvez tenha sido feito para mim. Entendo que o pouco pode, sim, ser muito, porém, ainda é bem difícil compreender isto por completo.

Outro fator crucial para mimha morte está no que se chama de "coração". O meu é mesmo um pobre coitado! Está totalmente morto. Trabalhou tanto nos último dez anos, em vão, que acabou morrendo. Antes de mim, ele se foi. Não estou colocando muita fé de ele voltar à vida, não, por mais que eu venha a ressuscitar. Deixar ele descansando em paz é o melhor que faço. Ele estava merecendo isso, me avisou e eu não liguei. Agora, sei que não posso fazer ele voltar ao batente, literalmente. Se um dia o coração voltar à vida, que seja de uma forma saudável, mas ainda acho que as forças superiores não querem que isso aconteça. Elas devem ganhar algo com isso, sei lá.

Deixando agora as metáforas:
Há tempos, eu necessitava de uma regeneração. Há tempos eu pressinto uma grande mudança. Essa minha morte em vida veio em um tempo propício. Andaram me acontecendo coisas desagradáveis, pessoas desagradáveis, reações desagradáveis. Sinto que uma época está se fechando. Eu reclamo da minha pressa, todavia, sem ela se consigo um bocado de coisas que sei que foram feitas para mim. Estas, sim. Continuo frenéticamente a correr atrás delas, pois eu sei que somente estas coisas irão me ajudar a sair da "passagem" para a terra novamente. Não sei porque, mas as forças maiores do universo me dizem sempre que não posso ir para o céu definitivo agora. Se é assim, não vou brigar, não. Fico apenas aguardando...

sexta-feira, 23 de julho de 2010


Aqui e lá, como sempre.
Correndo e circulando, como sempre.
É assim que tudo vai voltando aos seus conformes.

sábado, 17 de julho de 2010

A instantaneidade do carioca

O carioca é o povo mais legal e hospitaleiro do mundo. Não se importa de onde você vem. Vai te deixando, assim sem mais nem menos, adentrar em casa, dormir, comer, beber, usar o banheiro e fazer cafuné no cachorro ou gato. Te permite entrar no seu circulo de farras, culturais ou não, dizendo fazer questão da sua presença, que você está proibido de faltar e tal. Abre a vida, conta os problemas sexuais, familiares, profissionais sem pudor ou receio de ser mal interpretado. O carioca é um ser tão desapegado de certas coisinhas que chega a ser bonito ver um levando a vida. Está sempre numa boa e o planeta todo o conhece por isso.

Porém, o carioca esconde em si um segredo, que vai muito além do que é dito a seu respeito nas letras de Bossa Nova, em especial, os nascidos e criados na zona sul. O que o planeta todo não sabe é que esse desapego é tanto que pode chegar às pessoas. Isto é, o carioca consegue de uma forma inexplicável se desligar de criaturas as quais um dia já foram chamadas de grandes amigos ou amores.

Todo mundo se torna descartável, que nem copinho de café. É uma questão de utilidade. No princípio, todos se empolgam contigo. Basta dar carona quando se tem carro, emprestar a matéria atrasada, dar cola na hora da prova, estar sempre lá quando a pessoa te “quer”. Isso até o dia em que a novidade deixa de ser novidade e você se torna mais uma pessoa normal, perdendo a graça. Enquanto se é útil, todos têm tempo pra você e até perguntam como anda sua mãe. Mas, de uma hora pra outra, isso acaba por acabar ou alguém mais útil e fodarástico que você aparece e o resto é como acabou de ser dito no início do parágrafo.

Essa instantaneidade típica do carioca pode assustar quem vem de alguma cidade de pensamento mais conservador. Nesses outros lugares, os indivíduos se apegam muito mais. Se preocupam com outros até de mais. As amizades e os casamentos são de longa data, o que nem é tão visto no Rio. Na cidade do Cristo, os casais são tão intensos que tudo começa e termina muito rápido. Ninguém sabe tirar proveito da saudade, da distância. A necessidade de estar perto é tão gritante que a consequência é o breve enjôo mútuo (o fim da utilidade) e o desmanche da relação. Todavia, bem na próxima esquina, sempre existe uma outra “novidade” e a intensidade começa toda de novo pra terminar sem choros ou mágoas, de novo (pois sempre haverá outra “novidade” e assim por diante).

Apesar da minha maneira um tanto franca de falar, nem todos os cariocas são assim. Pelo menos por enquanto, sei que ainda não me tornei descartável para cem por cento dos que conheço.



Para os meu amigos não cariocas que amam o Rio, mas sabem muito bem que isso tudo aí é bem verdade.

terça-feira, 29 de junho de 2010

As mil histórias

Andam circulando muitas histórias pela minha cabeça, talvez umas mil. Meus últimos anos vêm me dando inspiração suficiente para realizar um bocado de filmes, todos tirados da minha vida. São histórias com início, meio e fim definidos, histórias com início, meio e fim indefinidos. Há ainda as histórias que começaram e ainda não terminaram e também as que evito o início por já prever o final. Muita informação, imaginação e imagem.

Meus últimos escritos, entre contos e roteiros, são baseados em minhas vivências. Mas não é fácil. A arte de criar através de situações próprias, principalmente as ruins (sim, são elas as grandes musas inspiradoras), é uma coisa difícil de explicar. Acho que as histórias saem como uma espécie de desabafo. É através delas que tenho o poder de criticar, dar lições de moral, rogar pragas, matar, morrer, renascer, sem ser eu. Vivo a situação com a minha peculiar intensidade e escrevo. As palavras saem dos dedos como as lágrimas dos olhos. Tempos depois, inteira ou parcialmente curada do mal (em se falando sobre passagens de vida desagradáveis), releio aquele registro e até consigo rir da palhaçada que foi e na hora, devido o desespero que cega, eu nem percebi. Ás vezes, me emociono com meus textos, como se não fossem meus.

Seria bonito mostrar tanta coisa por imagens em movimento. Muita gente, tenho certeza, iria se identificar. Mostrar meu olhar e despertar a reflexão é o que eu realmente gostaria que acontecesse, o quanto antes. Até porque as pessoas precisam com urgência começar a pensar com um pouco de sensibilidade.

Quero fazer um cinema realista, mas com beleza.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A raiva que dá

O destino que apresenta seu lado irônico.
A vontade de ir embora que renasce.
O senhor safado que renega a própria geração e persegue jovens.
As palavras que querem ser escritas e não saem.
O jogo da Copa que distrai.
A menina maldita que aparece na hora indevida, como um aviso.
A tarefa remunerada que chateia.
O novo amor que vem belo e desaparece misteriosamente numa esquina qualquer.
A farpas trocadas sem necessidade por gente que se ama e se precisa.
A notícia maravilhosa e milagrosa que também entristece.
Os olhos errados que enxergam o que não foi feito para eles.
As pessoas que não aparecem quando se precisa delas.
O amanhã que teima em ser duvidoso, com toda a razão.
A esperança que adoece a cada segundo.
A raiva que dá.